02/05/2009
- W:O:A Metal Battle (Hammer
Rock Bar, Campinas)
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Na
bucólica manhã de sábado fui convidado
pelo Adriano, um dos sócios do Hammer, para ser
um dos jurados para a etapa campineira do Metal Battle,
concurso realizado anualmente pela revista Roadie Crew
e a empresa alemã ICS, que indica representantes
regionais (em 2008, o Voodoo Shyne faturou) para a grande
final no Rio, dia 24/5. Quem vence esta é o representante
brazuca no, possivelmente, maior festival de heavy metal
contemporâneo: o Wacken Open Air, que rola em
30/7 e 1/8 na cidade alemã homônima…
uma enorme responsabilidade e tanto pra mim como para
os que dominariam ao palco da casa à noite.
Nunca
fui fã de batalhas de bandas porque isso fatalmente
gera competição e, muitas vezes, atritos
entre bandas - e o que a gente menos precisa no underground
é desunião. Mas dada minha experiência
algumas semanas antes com o Battle of the Bands no Woodstock,
evento que particularmente me agradou demais tanto pela
proposta como pela boa organização e premiação
(o War Mind de Itu ganhou horas de estúdio),
topei participar desta porque refleti que isso, antes
de qualquer coisa, é um estímulo concreto
às bandas para saírem da garagem e/ou
darem aquele pouco mais de energia em seus ensaios,
composições e shows - e convenhamos, somos
expostos diariamente a uma competição
ferrenha no trabalho, faculdade ou escola.
Só
de entrar no Hammer já se sente uma eletricidade,
uma ansiedade no ar diferente dos dias usuais de show.
Se antes de subir no palco quase todos sentem aquele
friozinho na barriga, estar numa competição
aberta deve colocar um iceberg no estômago do
músico. Fui recebido pelo representante da Overload
Records e apresentado aos demais jurados (de morte,
como bem brincou o Adriano): o Fabiano Negri (vocal
do longevo Rei Lagarto), meu amigo André Boonen
(um dos guitars do Mortage) e uma figura que admiro
há muitos anos - Antonio Carlos Monteiro, redator
da Roadie Crew e Rock Brigade… além de
ídolos na música, tenho também
alguns como críticos musicais, e ele praticamente
moldou meus conhecimentos roqueiros em todos estes anos
escrevendo sobre música pesada. Enorme honra
e uma grande pessoa, só por essa já teria
valido minha noite!
Antes
de entrar na resenha em si, cabe citar alguns aspectos
que desconhecia da produção, e que considero
importantes partilhar com o leitor. Como disse o Tony
em meio a risadas de todos, não devíamos
julgar as bandas como escola de samba, dando nota pra
vários quesitos: escolhemos as três melhores
em ordem de preferência, como se fosse alguém
que contrataríamos pra uma festa ou show. A primeira
leva 3 pontos, e segunda 2 e a terceira 1, sendo que
os votos somados eram um de cada do júri mais
a eleita do público, totalizando 6. Só
a vencedora é anunciada, algo presente no contrato
e no concurso original da Alemanha, para não
ter demérito entre as que não se sobressaíram
à vencedora - o que considerei corretíssimo.
Pra
quem suscitava dúvidas quanto a favoritismo de
banda apoiada por revista, gravadora ou algum outro
fator externo, a idéia vem abaixo pois a variedade
de estilos dos jurados é bem heterogênea,
e ao menos o meu voto se baseia exclusivamente na competência
de uma banda. Todos que me conhecem e acompanham meus
escritos sabem que tenho preferência por death
metal, mas gosto pessoal some totalmente nessa hora:
só avalio quem foi o melhor em sua praia, independente
de ser grindcore, gothic, hard ou thrash - e tenho a
plena convicção que meus companheiros
se utilizaram da mesma ponderação para
avaliar.
Mas
afinal de contas eu tava lá pra ver quem se sobressaía
despejando seus decibéis, certo? Assim sendo,
quem subiu ao palco primeiro foi o Exordium, alterando
a ordem original pois alguns de seus membros ainda tocariam
em outro lugar nessa mesma noite. O sexteto está
com uma boa estrada nas costas e isso agora se reflete
também na postura da vocalista Talita, cuja primeira
apresentação resenhei aqui mesmo no site
(http://www.metalrise.net/resenhas220608.html).
Só achei a presença de palco (ou falta
dessa) do baixista Jo e do tecladista um tanto inerte,
até se comparada com a dos demais membros. Músicas
bens construídas e pesadas, sem muito chororô
que impera no gothic metal em geral - gostei bastante
da apresentação.
Aí
veio o hard rock do Slippery, também aqui de
Campinas, e pra mim foi a melhor da noite. Os caras
felizmente estão deixando de lado as afetações
e figurinos glamorosos bem típicos do estilo,
e se focando exclusivamente na música, que está
muito pesada. Transpareceram uma tranqüilidade
quase surreal no palco, com presença surpreendente
boa do baixista Erico, os guitars Dragão e Kiko
(esse tá um verdadeiro demônio nas 6 cordas,
nossa) voando alucinadamente nos frets, e a segurança
que Rod e Fabiano transmitem respectivamente na batera
e vocal. Bem mais maduros e coesos, ganharam fácil
o público - que, diga-se de passagem, não
era nem de longe a platéia hard habitual que
os acompanha.
De
São Carlos veio o MothercoW, e seu groove mezzo
thrash deu uma bela sacudida na parte da platéia
que buscava mais fúria na música apresentada
até então. Não conhecia o som dos
caras e demonstraram muita raça, agitando sem
parar com seu visual bem sui generis de cowboys - aliás,
engraçado que a caveira de boi que o vocal levou
pro palco lembrou eu e uns amigos do finado Bestymator,
banda de black metal do interior extremamente hermética
e cultuada no meio underground. O único senão
é que a música deles é muito linear…
deu a sincera impressão que tocaram o mesmo som
diversas vezes seguidas, além de ser calcada
em excesso no Pantera, o que infelizmente chega mesmo
a mascarar a identidade da banda. Dão o sangue
no palco e têm um espaço enorme para explorar
com a criatividade já presente, embora tímida.
Chega
a vez do Goatlove, cujo som realmente não me
atrevo a rotular, e foram competentes em sua apresentação,
mas não conseguiram prender a atenção
dos presentes. Sua sonoridade é alternativa no
sentido mais restrito da palavra, um rock de muita identidade
com pitadas de punk, hard e que em quase nada lembra
o Sunseth Midnight, notória banda gótica
da qual o ótimo vocalista Roger Lombardi é
egresso. Esse pessoal de Guarulhos, na real, só
tem bons predicados: música madura apesar de
nova, performers extremamente profissionais e talentosos,
carisma, personalidade e segurança - só
que essa noite não conseguiram canalizar isso
de forma eficiente pra moçada… e não
há dúvida alguma que crescerão
no meio gothic/hard!
Fechando
a festa veio o Gestos Grosseiros, que deleitou os que
aguardavam uma pancadaria sonora mais contundente. Conterrâneos
do Goatlove, mandaram o death virulento com o qual sou
familiarizado pois tenho o CD deles há alguns
meses - mas tal qual em seu álbum de estréia,
soam um tanto genéricos apesar dos 13 anos de
carreira. A presença de palco dos caras é
excelente, além de mostrarem pleno domínio
de suas armas - com destaque ao preciso batera Anderson
e ao ótimo baixista/vocal (cujo nome desconheço:
o Metal Archives e MySpace da banda estão desatualizados),
mas precisam tomar um chá de originalidade urgente,
pois mostram um potencial latente e são inquestionavelmente
bons músicos. Afinal, um bom death metal não
é feito única e exclusivamente de brutalidade…
ah sim: vale registrar também a solidariedade
deles, que gentilmente cederam sua 1ª posição
no cast ao Exordium.
Bom,
nos reunimos e apresentamos nossas avaliações
e parecer final ao Tony, aguardamos um pouco a apuração
dos votos na urna que ficou à disposição
do público, e chegamos à quase unânime
conclusão que o Slippery apresentou o melhor
conjunto, fora aquele pingo a mais de energia e talento
que fez a diferença entre todas as competentíssimas
bandas (claro, senão nem na eliminatória
estariam) que se apresentaram. Parabéns aos caras,
cujo incrível crescimento acompanhei desde que
o Hammer abriu suas portas pela 1ª vez, ao público
que prestigiou todas as atrações e agüentou
bravamente até o fim do evento, e à produção
que se mostrou muito atenciosa nesta agradável
e ruidosa noite. E que o Slippery faça assim
bonito na final!
Glauco "Sarco"
Grupo Metal Rise